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Amarena - Um romance em Londres

07 Julho 2018
Autor :  
amarena dndiario

Era  um dia qualquer em Londres . Acho que era Julho...não me lembro do dia, mas lembro do mês¹. Eu estava hospedado em um singelo hotel na  Glasshouse Street, o crepúsculo surgia no horizonte, entre um céu cinza e um dia muito frio. Sufocado e angustiado, resolvi sair. 

 

Eu caminhava e fingia que o tempo passava². Haviam me falado de um lugar ali bem perto, virando a esquina, o Wonder Mches's London Pub.  Na porta um mural de grafite e o nome do lugar estampado em um neon púrpura meio apagado , falhando ao piscar.

Desci as escadas e ao entrar no hall, observei poucas pessoas. Um lugar escuro, um pouco sombrio, algumas luzes em pontos fixos lembravam  o Seb's ³.

Não sabia exatamente o que eu queria ali. Eu não bebo, não fumo...por que diabos fui parar em um pub londrino? Pedi um Suco de Amarena⁴, não sabia o que era. Amargo e ácido, eu odiei! Chateado pela escolha errada na bebida ,me sentei ao fundo , em uma mesa pouco iluminada. Mas dava pra ver os rasgos de um estofamento já cansado pelo tempo, escondido nas sombras , onde poucos notariam.... mas eu ....sempre eu, tenho que notar tudo.

Observando as poucas pessoas ali presentes, alguns riam pelos cantos da boca, dissimulando uma falsa felicidade, outros com cigarros acesos e sorrisos amarelados deixavam o lugar enevoado e com um cheiro  que me incomodava. Não estava bem: me sentia mais sufocado e angustiado que antes. "-Vou dar o fora daqui." - pensei.

Mesmo diante do imenso desejo de cair fora daquele lugar, eu esperava,  e de tempo em tempo, tomava um gole de suco, como se alguma coisa importante fosse acontecer.

Olhava para os lados, em silêncio, observando cada detalhe daquele lugar. Num relance, algo me prendeu a atenção: cabelos longos, pele clara... um copo de whisky com gelo nas mãos, um olhar penetrante e misterioso... uma linda garota me observava fixamente.

Ruborizado por ter sido flagrado bisbilhotando as conversas alheias, desviei o olhar. "- O que faço agora?" murmurei em pensamento. Resolvi olhar novamente, poderia ter sido apenas coisa da minha cabeça.... mas não.  Ela continuava a me olhar fixamente, agora com um sorriso cingido nos lábios fechados, como se estivesse me dizendo "- Te peguei! Eu sei o seu segredo".

Fui pego. Não adiantava mais desviar o olhar. Agora, eu tinha que tomar uma decisão: ficar  ali parado ou criar coragem, me levantar , caminhar até ela e tentar uma investida?

Já bêbado e embriagado por aquele suco vermelho, se é que isso é possível, me levantei e me dirigi ao bar onde ela estava sentada. Meu coração batia fora do ritmo, como se houvesse milhares de tambores de guerra rufando e motivando  minha decisão.

De repente , sou obrigado a parar meus passos , minha imaginação ressoa um som estridente,tal qual a cena do banheiro de Hitchcock⁵. Um homem chega e para  ao lado dela, toca seu rosto e a beija nos lábios delicadamente.

Era um sujeito alto, bem trajado, elegante ao estilo do mais cavalheiro dos londrinos. Mais uma vez ele a beija, agora mais agressivamente, segurando-a fortemente pelos braços.

Eu estava ali parado , no meio do recinto, tragando passivamente a fumaça dos cigarros, totalmente paralisado e bloqueado, sem saber  o que fazer.

O rapaz vira de costas e começa a conversar com o barman, enquanto a garota continuava a me olhar fixamente, quase que me chamando, para que eu continuasse , que a salvasse daquele homem alto bem vestido de olhos azuis, o mais belo vilão.

A conversa com o barman continua , e eu decido que vou até ela. Não me importa mais : preciso fazer isso! Avanço caminhando em sua direção, quando de repente o rapaz estica o braço em volta da cintura dela, olha por cima dos ombros diretamente para mim como se dissesse "- Te peguei! Eu sei o seu segredo. Mas ela é minha."

Em menos de três segundos , mentalmente, eu recitei todos os palavrões que eu conhecia. Quem ele pensava que era? Sujeito arrogante... e belo... e bem vestido dos olhos azuis. Eu precisava saber ... era eu que ela queria. Por isso me olhava fixamente. Eu tinha certeza!

Não iria desistir agora. Iria enfrentar toda aquela situação como homem!

Ao me aproximar do balcão, notei que ela parou de me encarar e baixou a cabeça. Se voltou para o rapaz que gargalhava de alguma piada que o barman havia contado. Acho que eram muito amigos.

Percebi solidão nela, estava com ele, mas triste. Mas não sabia o que fazer . Deveria aborda-la? Deveria dar um soco no rapaz  e carregá-la nos braços como seu salvador?

Parado ali , ao lado daquele casal, totalmente perdido em meus devaneios e pensamentos, sou interrompido pela voz grave e rude de um outro barman:
"- Vai querer mais alguma coisa?"- pergunta
Inerte,mas atento, penso rapidamente e respondo:
"- Me veja outro Suco de Amarena!"- exclamo exaltado.

Noto que ela sorri, ao reparar meu desconcertante pedido. Eu retorno olhando fixamente para ela, um sorriso pelo semblante. Fui vitorioso. Enfrentei o galã vilão , e mesmo que apenas por um momento, senti um fio de felicidade na face, uma sensação indescritível para o maior de todos os tímidos solitários.

Era hora de voltar para o meu assento. Dei meia volta, já inebriado pela minha fantástica realização , quando percebo um lenço azul, com bordas douradas finamente bordadas cair ao chão.

Me abaixo rapidamente para apanhar o lenço... poderia ser minha chance de dizer pelo menos "-Oi..."- pensei.

Me levanto e mais uma vez sou surpreendido : durante meu nobre ato de devolver o acessório a moça, o casal havia se levantado e se encontravam caminhando para a saída do pub.

Abriram a porta e se foram, sem ao menos nem olhar pra trás. Ela que tanto me olhou, como se quisesse ser salva, me deixou sem ao menos olhar pra trás... e se foi com aquele maldito e lindo rapaz de olho azul !

-"O Diabo que o carregue!"- pensei. "E ela também! Quem ela pensa que é? Acha que pode ficar me olhando e pedindo ajuda sem dizer uma palavra? Para o inferno com ela também!
E ainda me deixa essa porcaria de lenço azul! Vou engraxar meus sapatos com esse lenço!
E agora ainda tenho que tomar essa droga de suco de amarena horrível! Tudo culpa dela!"

Voltei para a mesa com o lenço azul totalmente esmagado em minhas mãos. Me sentei, e tomado de um rancor e ódio, virei o suco de uma vez. -" Que droga"- exclamei em voz alta.

Coloquei o lenço sobre a mesa, frustrado, agora só pensava em voltar para a pousada e dormir. Por quantos dias fossem necessários. Sem ver a luz da lua ou do sol. Me sentia amargo.

Com as mãos sem ter o que fazer , comecei a desamassar o lenço e abri-lo sobre a mesa. Passei a mão por cima por diversas vezes, desejando que ele se tornasse liso novamente.

Em meio a pouca luz, eu não havia notado algo grafado no centro do tecido. Um nome borrado...e não dava pra ler."-T...O...F...parece...não consigo."- pensei.  Mas nitidamente, logo abaixo, haviam números. Sim , eram números. Um número de telefone! Era o telefone dela!

Extasiado, eu soltei uma grande gargalhada vitoriosa :"- AH! AH!AH!". O riso foi tão alto que todos no recinto olharam fixamente para mim, parecendo querer me repreender.

-"Que se danem!"- disse em voz alta.
-" Barman, vamos comemorar! Me traga mais um suco de Amarena"! exclamei.

continua...


¹ Julho de 83 - Nenhum de Nós
² Eu caminhava - Nenhum de Nós
³ Lalaland- Cantando estações
⁴ Amarena - espécie de cereja
⁵ Psicose - de Alfred Hichcock 1960

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André Faria

André Faria é administrador de empresas, sócio do Diário Noticias, presta serviços de Gestão e Consultoria Comercial a empresas do segmento de alimentos, músico  apaixonado por rock'n'roll, pratica esportes radicais nas horas vagas e não consegue de maneira alguma fazer um regime , pois odeia brócolis e vegetais.

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