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Amarena - Um romance em Londres - Cap. 2

09 Julho 2018
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Cap Anterior:
Em meio a pouca luz, eu não havia notado algo escrito no centro do tecido. Um nome borrado estava escrito, e não dava pra ler. Mas nitidamente, logo abaixo, haviam números. Sim , eram números. Um número de telefone! Era o telefone dela!
Extasiado, eu soltei uma grande gargalhada vitoriosa :"- AH! AH!AH!". O riso foi tão alto que todos no recinto olharam fixamente para mim, parecendo querer me repreender.
-"Que se danem!"- disse em voz alta.
-" Barman, vamos comemorar! Me traga mais um suco de Amarena"! exclamei.

O inicio da busca.
Ansioso por  descobrir quem era e que mistérios escondia a linda garota que havia me deixado o telefone no lenço azul, apressei-me em tomar o detestável suco de Amarena , queria sair dali o quanto antes e tentar resolver aquela fixação.
Não era tão tarde, haviam muitos carros estacionados e pessoas pela rua. Andando rapidamente em direção ao meu hotel, passei por um Mini¹, onde um casal se beijava romanticamente ao som de Closing Time².
by Semisonic
A cena me deixou em estado de euforia, de fato, era um tipo de felicidade que só se vê em filmes hollywoodianos, como se eu fosse correr e encontrar minha amada esperando na porta do hotel. 
Entrei rapidamente no hotel, pedi as chaves na recepção e subi três degraus por vez até o terceiro andar , onde ficava o meu quarto. Meu coração estava em arritmia, sem fôlego devido a minha condição sedentária. Me atrapalhei ao tentar colocar as chaves na porta, tanto que caíram no chão. Coloquei a mão sobre os joelhos, respirei fundo por três vezes , apanhei as chaves, agora um pouco mais calmo, consegui a simples façanha de abrir a porta.  
Me atirei na cama e já peguei o telefone. - "O lenço? Onde está o lenço?"- disse. Procurei nos bolsos, não estava encontrando... por um momento fiquei propenso a frustração... nem reparei que o lenço estava o tempo todo em minhas mãos, entrelaçado entres meus dedos de tal forma que parecia parte de mim. Estampo um sorriso largo, reflexo vitorioso de satisfação por não ter perdido o belo acessório azul...eu  sempre fui mestre em perder tudo. Chaves, dinheiro, canetas, documentos... um verdadeiro trapalhão.
Começo a discar os números, conforme estampados no lenço azul. Minha boca estava seca, parte pela ansiedade , e pelo gosto acido do maldito suco de amarena.
Ouço um toque diferente ao telefone. Atendeu! -"Um minuto.Sim?" disse uma voz feminina.
-"Alô... sou eu.. nos vimos agora a pouco... no bar...eu queria..."- disse eu, já sendo interrompido pela mulher do outro lado da linha:
"- Telefonista. Que número deseja chamar"- disse ela.
Fico mudo por alguns instantes. Que gafe cometi. -"Senhor, que número deseja chamar?"- insiste ela. 
-" Me desculpe. Por favor ligue para..."- balbucio com a voz baixa. -" Senhor, pode repetir? Não entendi"- ela responde.
Eu não queria intermediários. Nem mesmo uma telefonista. Eu queria ligar pra ela e ouvir sua voz, mesmo que eu não tivesse coragem de dizer nada. Meu momento terno foi desgastado pela infame telefonista, que agora era detentora  de todo meu ódio e atenção:
-" Senhora telefonista, não posso ter privacidade? A senhora tem que se intrometer na minha ligação? Não posso ligar diretamente do meu telefone sem que a senhora intervenha?" - disse.
-" Senhor, está ligando do seu quarto, e neste hotel, todas as ligações passam pela recepção.Se desejar, pode procurar um telefone publico e pode ligar diretamente. Informo que as tarifas pelo tempo que estou lhe servindo serão cobradas juntamente com sua hospedagem."- responde ela.
Que desaforada! Mulherzinha petulante! Quem ela pensa que é? Bati o telefone com força, não iria perder mais um segundo do meu tempo com uma telefonista grossa e mercenária!
-"Quer saber?"- pensei. - "Vou procurar um telefone público mesmo".
Enrolei um cachecol no pescoço, as noites londrinas são muito frias. Apanhei algumas moedas que estavam em cima do balcão, tranquei a porta e desci as escadas.
Passei vagarosamente pela recepção, ainda estava irritado pelo comportamento da telefonista. O recepcionista calvo preenchia algum tipo de formulário, uma moça loura falava a um telefone... mas onde estaria a megera?
Mais ao fundo, em uma porta entreaberta, consegui ver uma central telefônica antiga, daquelas de pinos ainda... aparelho obsoleto e uma mulher sentada com um grande fone no ouvido.
Parei por um minuto e observei: era uma mulher magra, aparentemente uns quarenta anos, vestida de preto como se estivesse de luto com a vida. Cabelos ruivos, enrolados por cima da cabeça no formato de coque rosquinha, óculos maiores que seu rosto. Não parava por um segundo. Aliás, acho que ela só fazia aquilo. Não tinha vida, era uma pessoa que vivia para trocar pinos e ouvir conversas alheias. -"Abelhuda! Intromedida"- murmurei.
 
De repente a telefonista vira o rosto e olha fixamente para mim, como se tivesse me ouvido. Fixei meus olhos nos dela, cingi as sobrancelhas e sem emitir nenhum som , pronunciei apenas com os lábios:
-"Abelhuda! Intromedida.Fofoqueira!". Ela então arregalou os olhos por detrás daqueles óculos de Madame Min³, entendendo perfeitamente meu gesto. Eu então esbocei um sorriso malévolo e cínico, em sinal de vitória. Estava vingado."- AH! AH!AH! Avenged Sevenfold⁴!" - sussurrei.
Subi pelo calçadão olhando em todas as direções para encontrar um telefone público.  Andei por duas quadras até a Vigo St., já dobrando a esquina com a Sackville St. encontrei duas cabines. Estavam em mau estado, vidros quebrados , mas aparentemente os aparelhos telefônicos estavam em ordem.
Algumas emoções desencontradas transitavam em mim. Um espasmo de felicidade, uma certa paz e uma ansiedade que me fazia tremer as mãos. Quanta insegurança!
Já haviam se passado umas duas horas desde que a tinha visto no bar. Na minha memória recente, o rosto dela, o lenço azul , o galã vilão de olhos azuis  e o ácido suco de amarena.
Adentrei a cabine telefônica, fechei a  porta , e desta vez, na privacidade pública daquele local, nenhuma telefonista megera iria interferir. Coloquei-me a discar os números, observando atentamente o lenço. Não poderia errar.
Um breve silencio após discar o último número. Ansiedade. O primeiro toque... meu coração dispara. O segundo toque... agonia. -"Meu Deus! Atende este telefone"- disse eu já entregue ao desespero. Três , quatro, cinco toques.... eu já estava a ponto de infartar.
De repente, como a bonança após a tempestade , ouço ao telefone:
-"Alô?" 
 
continua...
 
 
¹ Mini - Carro Inglês 
² Closing Time - Canção da Banda Semisonic 1998
³Madame Min - personagem Disney criada em 1963
⁴Avenged Sevenfold- Banda Rock Americana, cujo nome traduzido significa "vingado  sete vezes
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André Faria

André Faria é administrador de empresas, sócio do Diário Noticias, presta serviços de Gestão e Consultoria Comercial a empresas do segmento de alimentos, músico  apaixonado por rock'n'roll, pratica esportes radicais nas horas vagas e não consegue de maneira alguma fazer um regime , pois odeia brócolis e vegetais.

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